Croácia
Zagreb
Sentimos que tínhamos voltado ao inverno profundo. Descobrimos uma cidade cinzenta a pulsar de vida.
Os mercados são sempre palcos belos e representativos de uma cidade. As pessoas
calmamente compravam as suas flores, queijos, fruta, legumes.
Liubliana
A paisagem muda. Ao entrarmos na Eslovénia as árvores são mais altas. Ao redor de
Liubliana começamos a ver montanhas, cenário que nos acompanhará ao longo desta
viagem. Deliciamo-nos com estes monstros de pedra de incrível grandeza. O nosso hotel é no meio de uma floresta, em Medno. Pessoas circulam de bicicleta. Um silêncio incrível.
Voltamos à Croácia para visitar os lagos. Momentos houve em que, entre a água que caía do céu e a que passava velozmente por nós, não tínhamos bem a certeza se não iríamos ser engolidos por tudo aquilo: montanha e rio, rio e montanha.
Era altura de partir em direção a Split. Pelo caminho encontrámos neve. As meninas estavam
mesmo felizes. Chegámos ao maior túnel da maior montanha. Quando entrámos estava nublado e cinzento. Quando saímos estavam 17º graus.
Montenegro
Ao chegar a Montenegro somos recebidos num posto fronteiriço por um jovem entediado. Pede-nos os documentos do carro e no final, sem olhar para a nossa cara, põe um cigarro na boca, olha para o lado e diz-nos: Go!
Ficámos assoberbados com as montanhas. A cidade desenrola-se entre o mar e a montanha ao longo de uma fina estrada. As casas ladeiam a estrada, ora frente ao mar ora na vertical.
Abro o caderno e tenho o empregado, o Alex, muito curioso com os desenhos. Conta-nos que todo o país está a ser vendido aos que fogem da guerra. São abatidas árvores, construídas casas em catadupa, tudo para fazer dinheiro. No entanto, para os habitantes locais, o aluguer ou mesmo a compra de habitações tornou-se impossível devido aos preços.
Kotor
Iríamos subir ao seu topo. Perdi o fôlego no primeiro patamar. Deixei-me ficar a desenhar a cidade vista de cima. Quantas vezes temos essa possibilidade?
Passaram por mim várias pessoas. E nós, todos os que desenhamos, sabemos que o desenho é um agregador. O primeiro a ficar comigo à conversa foi um tripulante do cruzeiro “The World”.
Explicou-me que este navio é o único onde podem morar pessoas e que vinha do médio oriente e seguia para a costa da Dalmácia – voltaríamos a encontrá-lo em Dubrovnik.
Seguiu-se Milka. Milka aparece de rompante e escala o muro da pequena igreja onde me abriguei para desenhar. Diz-me num inglês rudimentar que ali vai todos os dias rezar para ter saúde – “que é o mais importante na vida”. Já viu demasiadas guerras. Já recomeçou a vida várias vezes. O que interessa agora é que tem os filhos na faculdade. Milka não fala bem inglês, no entanto sinto que a percebo como se falasse português. Vende água no topo da muralha aos turistas desidratados. Já teve uma loja. Já viveu muitas vidas. Milka olha-me nos olhos: “A guerra só traz destruição. Já me refiz da guerra. Fujo dela”. No final, como se nos conhecêssemos desde sempre, selamos a conversa com um abraço. Milka desce a colina em direção à sua vida e eu corro para as folhas do meu caderno para guardar tudo o que ela me deu.
Nesse dia ainda conhecemos Ivana, uma montenegrina, professora de espanhol, que esteve connosco à conversa. O ordenado que recebia era tão baixo que acabou por deixar o ensino e ficou a explorar uma loja de souvenirs no centro de Kotor. Anda de bicicleta, faz-lhe confusão a falta de reciclagem e de infraestruturas que permitam à cidade evoluir de forma sustentável. Ivana faz falta a Montenegro.
Dubrovnik
Entramos na old city. Sentimo-nos em casa ou não fôssemos fãs do Game of thrones. Somos atraídos pelo cheiro a açúcar queimado com canela. Entramos numa loja onde existem doces de alfarroba para venda, amêndoas com açúcar, laranja caramelizada. Ficamos à conversa com Hannah. Fala-nos da cidade, de como o GoT contribuiu para a sua descaracterização. De como uma vila onde moravam 5 mil pessoas, alberga agora apenas 100. De como os mercados estão a desaparecer e os restaurantes vendem tudo a preços inflacionados. Conta-nos as peripécias dos turistas que por ali entram desenfreados: "A melhor que já me aconteceu foi uma Mãe e uma filha que entraram aqui à procura do bordel do Little Finger e, por acaso, esse sítio sabia onde era porque foi filmado aqui, mesmo à frente da loja. Disse-lhes, é aqui ao lado.
Saíram e voltaram muito zangadas: “Aqui ao lado é um museu!”
- Sim, disse-lhes, é um museu. Foi filmado aqui ao lado, num museu...e elas insistiam que queriam ir ao bordel do Little Finger... até que tive que lhe dizer: era um bordel no filme e é um museu na vida na real.…"
Mostar, Bósnia
Metemo-nos no carro e partimos debaixo de uma imponente tempestade. Fazemos quilómetros numa Croácia cada vez mais interior e rural. Voltamos a puxar dos nossos passaportes. Vamos em direção a Mostar, Bósnia. Passamos por vilas que são trespassadas por rios, quais sinuosas estradas que se insinuam por entre as casas. Entramos no primeiro restaurante. Tem uma esplanada maravilhosa sobre a cidade e sobe o rio Neretva. Pedimos a nossa comida e enquanto aguardamos Anuel, que trabalha no restaurante, sente-se confiante e puxa de uma caneta e desenha uns traços. Começamos a conversar, mais a ouvir. Anuel tem 24 anos e fala-nos num inglês esforçado da guerra das mazelas que ficam. E sem que tivéssemos perguntado o que quer que fosse – ali estava à nossa mesa um relato de como países irmãos se tornaram inimigos e ainda hoje as relações, cristalizadas, são mantidas numa paz muito frágil. Anuel vai à Croácia de férias e para trabalhar. Do que gosta mesmo é de ir à Turquia e aí, refere, sente-se bem. Aliás, muito orgulhoso, traz-me um café turco.
No último dia acordamos cheios de vontade de nos despedir da cidade antes de nos enfiarmos numa ronda de aeroportos e escalas intermináveise.