Esta reportagem gráfica surge no âmbito da Bolsa para Correspondente no 12º Simpósio Internacional de Urban Sketchers que teve lugar na Argentina, Buenos Aires nos dias 9, 10, 11 e 12 de outubro de 2024
Nesta função há sempre um caderno entre nós e os outros e isso é um elemento verdadeiramente agregador e rico.
Desenhar é um exercício que nos pede tempo. Ser correspondente pede-nos velocidade. Este é um equilíbrio nem sempre fácil de conseguir.
Entramos no simpósio através da alma de Buenos Aires: a música. Dois homens, um a cantar e outro na guitarra, levam-nos a passear por esta cidade vibrante através da sua imagem de marca: o tango.
A sessão de apresentação decorre pela mão de Genine Carvalheira, Presidente Urban dos Sketchers, e Norberto Dorantes, o anfitrião.
Genine dá-nos conta que 67% das pessoas que ali estão, estão num simpósio de desenho pela primeira vez. Esta informação é recebida com grande entusiamo.
O primeiro dia inicia-se com duas conferências, ambas lotadas. As pessoas sentam-se onde conseguem. À falta de cadeiras há toda uma pequena multidão espalhada no chão.
Amber Sausen leva-nos a conhecer a realidade do seu grupo local. Começaram com 8 pessoas, agora são mais de 40 desenhadores.
Fala-nos da importância dos parceiros para tornar estas iniciativas realidade – não fosse o nome da conferência “Drawing connections through community partnerships".
Saímos da conferência para o frenesim lá fora, à porta da Universidade. Os grupos organizam-se para seguirem para os locais onde decorrerão os workshops.
Enquanto não partimos, desenhadores cumprimentam-se, outros desenham e ainda há os meio perdidos, que andam por ali à procura do seu instrutor para a manhã. O entusiasmo é palpável.
Seguimos para a Plaza Dorrego, mesmo no coração de San Telmo. “Para mim, o simpósio é sobre partilhar conhecimentos”, começa por dizer Rafael Fonseca, no arranque do seu workshop. E segue explicando: "O desenho não tem de ser realista. Pode ser o fim em si mesmo. A relação entre o papel e caneta.”
Passamos à ação, ao registo da fluidez dos “tangueros” - o desafio é apanhar no caderno a cadência do tango, uma das danças mais sensuais de sempre. Afinal de contas, o nome do workshop é “Taking the line to dance”.
Ali, mesmo ao lado, uma explosão de cor: Maru Godas dá o seu workshop dedicado ao tema “The beat of Baires: Passion backgrounds on coloured pencil”
Folhas de todas as cores recebem guaches na procura de um contraste. Os participantes dividem-se entre a procura de equilíbrio num workshop que lhes pede arrojo.
À tarde decorrem as demos. Cada instrutor faz uma demo daquilo que vai ensinar. As “demos” são curtas demonstrações em que os formadores revelam uma forma instantânea de “como fazer” aquilo que os distingue. Segui para a Norberto Dorientes para a sua demo intitulada “Argentine tango: capturing the rhythm”
Enquanto dois pares de “tangueros” se sucediam num palco improvisado vamos desenhando enquanto aprendemos nomes como “Cabezaso” – quando o homem convida a mulher apenas com o olhar, sem palavras. Passamos a nossa linha por outro movimento: “sanguichero” movimento em que o pé da mulher fica entre o pé do homem e o “gancho” movimento em que a perna da mulher vem atrás de forma rápida e forte.
Estamos no segundo dia. Gustavo e Nina, um jovem casal portenho, leva-nos a uma viagem no tempo incrível. Os fileteados começaram de forma muito informal: para ornamentar carroças de cavalos, de certa forma para embelezar o mundo, sem quaisquer pretensões de vender o que quer que fosse (perguntas muitas vezes levantadas na audiência – was it to sell something?)
Serviam apenas para tornar o mundo mais bonito – não chega?
Seguimos para os workshops. Vamos com Dan Asher entrando no mundo da reportagem gráfica.
Entramos em San Telmo.
Seguimos para a estatueta da Mafalda para apanhar os que ali andam à espera de se sentar com a revolucionária mais fofa de sempre.
Apanhamos pessoas, conversas e tentamos enquadrar tudo.
A próxima paragem será a Feira de San Telmo onde entrevistaremos Taka, o homem das sete vidas. Neste momento faz curas com cristais mas já fez de tudo um pouco. Podíamos ter ficado à conversa eternamente e tenho a certeza de que me surpreenderia sempre.
Continuo em San Telmo. Decido almoçar no mercado. Juntam-se a mim Jónathan, um colombiano de 33 anos e Andrea, uma mexicana de 28 anos. Decido desenhar Andrea já que Jonathan ainda está a comer. Fala-me do que a levou a juntar-se aos Urban Sketchers: conta-me que nas aulas de design as comparações eram muito duras e que algures no tempo se convenceu de que não era boa desenhadora. Quando conheceu o movimento dos urban sketchers ficou muito feliz porque não havia comparações, cada um desenhava como sabia e isso era a grande riqueza.
E pouco a pouco retomou o desenho tornando-se ativa nos Urban Sketchers.
Mais à frente, na Plaza Dorrego está Rita Sabler. Rita pede uma história, uma composição que leve em conta uma frase. Queremos encontrar um protagonista para o que vamos retratar. Quem, como e onde? Este será o fio condutor.
Sigo em frente em direção à Plaza de Mayo, Oliver Hoeller, está a terminar o seu workshop. Dá as últimas indicações: “Do you know when you have finished? It’s when you are not solving any problems, anymore”.
A plaza de Mayo está cheia de gente a desenhar. São vários os grupos de workshops que por ali andam. Todos os desenhadores desembocaram ali.
Estamos no último e terceiro dia do simpósio. Mário Linhares abre com a sua conferência sobre “historical sketchbooks. A sala está cheia e pessoas amontoam-se no chão.
Fazemos uma viagem pelos cadernos de Gherard Cibo, Degas, Féliz Ziiem, Caspar Friederich e Lucien Freud . Mário fala-nos sobre a escrita e de como pode trazer emoções aos desenhos. Cadernos que podiam durar 10 anos nas mãos destes desenhadores. Este percurso pelos cadernos históricos mostra-nos que desde sempre o caderno foi um espaço, um atelier móvel para que o artista possa experimentar, ver melhor o mundo e registá-lo.
Segue-se o frenesim habitual para a partida para os workshops.
Sigo Inma Serranito para o mercado de San Telmo. Vamos desenhar sem olhar para o caderno, soltando o braço, depois a mão sem nunca nos preocuparmos com o resultado. Um workshop cheio de potência. Vamos desenhar pessoas e movimento.
Seguimos pelo mercado dentro. À nossa frente numa outra mesa, um grupo de desenhadores liderado por Daniel Pagan retrata a arquitetura do lugar. Os turistas param curiosos” o que é isto?” “Porque estão todos a desenhar?”, “O que estão a fazer? Posso tirar uma fotografia?”.
De tarde encontramo-nos todos para a fotografia de família. O sol está forte, a fotografia tem que ser improvisada. À nossa frente Puerto Madero, nas nossas costas a Plaza de MAyo. E é nestas duas direções que os sketchers se dividem para mais um desenho rápido antes da sessão de encerramento.
Futebol, tango, conversas, gargalhadas – a sessão de encerramento é marcada pela vibração da alegria.